Aspectos históricos e reflexivos sobre a loucura

Bruna Oliveira

            Sob intenso processo de reavaliação em todos os países civilizados, a loucura, no século XX, despertou interesse crescente não só dos especialistas em suas manifestações emocionais e mentais, como dos estudiosos de suas consequências para a imaginação e a criação estética.

            Loucura é toda alteração grave e duradoura da personalidade que leva a um comportamento dissociado da realidade ambiente, capaz de contrariar os padrões culturais do meio em que o indivíduo se insere. O termo loucura não define, em sentido estrito, um conceito psiquiátrico. Trata-se, antes, de expressão usada tradicionalmente para referir-se a qualquer conduta em que se denote, reiteradamente, a “perda da razão”, a falta de sentido diante das normas adotadas em determinado contexto.

            Quando, em psiquiatria, se emprega o adjetivo louco, ou o substantivo loucura, sua significação é bastante precisa, pois designa certas formas complexas de neurose, de psicopatia ou determinadas características da conduta do paranoico. Assim, costuma-se falar, nesse sentido, dos loucos racionais, isto é, de doentes que racionam perfeitamente quando o tema apresentado é alheio ao complexo temático que lhes desperta as ideias ou motivos de delírio.

            Do ponto de vista crítico, o tema da loucura também foi abordado pelos autores que integraram o movimento antipsiquiátrico, fundamentalmente para tentar eliminar o caráter marginalizante do tratamento das demências e pôr em evidência que estas derivam da impossibilidade de aceitar uma ordem social severa, incapaz de assimilar os desejos profundos das pessoas e de tornar-se em projeção desses desejos.

            A valorização e avaliação social da loucura dependeram historicamente, em grande parte, de fatores que tinham pouco ou nada a ver com seu estudo científico. Em muitas das culturas antigas, o louco era tido como possuído pela divindade e, por isso, digno de todo respeito. Na Idade Média, enquanto a razão ainda não predominara, a loucura era aceita como fato normal da vida cotidiana e também podia ser vista como manifestação benéfica ou maléfica do além. Foi a partir do Renascimento que se iniciou a marginalização da loucura, como algo contrário à ordenação equilibrada e progressiva da vida social e econômica.

            Modernamente, alguns movimentos culturais, como o surrealismo, reivindicaram a necessidade de preservar a atividade criativa do artista exatamente como a de um “louco”, capaz de propiciar expressões que ultrapassem os limites do razoável e permitam assim a livre manifestação do talento criador.

            O filósofo e historiador francês Michael Foucault revelou, em obras como “História da loucura” na idade clássica, a raiz antropológica e linguística da atitude pela qual se procurou evidenciar o caráter normalizador do discurso psiquiátrico, que teria por propósito principal marginalizar e desqualificar todos os comportamentos que se afastassem do proposto como válido e universal por determinada sociedade. E debater esse tabu também requer quebra de preconceitos intrínsecos que persistem na sociedade, loucura faz parte de todos os momentos de nossas vidas, sejam lúcidos ou empíricos, realistas ou surreais.

 

 

 

 

AMARANTE, Paulo. Novos sujeitos, novos direitos: o debate em torno da reforma psiquiátrica. Cadernos de Saúde Pública, v. 11, n. 3, p. 491-494, 1995.

 

MIRANDA, Cristina Maria Loyola. O parentesco imaginário: história e representação social da loucura nas relações do espaço asilar. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 46, n. 3-4, p. 360-364, 1993.

 

CANDIOTTO, Cesar. Verdade e diferença no pensamento de Michel Foucault. Kriterion: revista de filosofia, v. 48, n. 115, p. 203-217, 2007.

 

AMARANTE, Paulo. Ensaios: subjetividade, saúde mental, sociedade. SciELO-Editora FIOCRUZ, 2000.