Como dar uma má notícia?

 

 

Bruna de Oliveira

            A vida nos ensina tantas coisas, uma delas é viver e aproveitarmos os bons momentos, os quais não passam rápido, voam. E como lidar com os maus acontecimentos? Mais do que isso, como contar uma má notícia a alguém?

 A medicina é cercada desses fortuitos, um dia somos estudantes em que presenciamos o nascer de um ser e no outro estamos diante de uma tragédia e, muitas vezes, somos a porta, o fio da meada e os responsáveis por transmitir aos outros a notícia boa e a ruim.

            Não, ninguém ensina como lidar e como contar a uma mãe que seu filho morreu, ou aos seus filhos que ela partiu de uma hora para a outra. Ou a um jovem que nunca mais conseguirá andar, ou aos recém-casados que descobriram que são inférteis, ou a criança que ficará cega, ou a grávida que tem o quarto do bebê pronto e que ele não sobreviveu ao parto. Esses são pequenos exemplos dos quais estamos expostos; muito mais propensos que a população geral e não estamos preparados para isso, nunca seremos, nunca estaremos.

            A maneira como encararemos e, principalmente, como contamos influencia diretamente a relação médico-paciente, é nesse momento em que há a descoberta que podemos transmitir um colapso, uma luz, uma força, uma esperança, uma segurança ou diversos outros adjetivos. Nesse momento o foco tem de ser a forma menos pior de contar ao outro o que ocorreu e estar preparado para ser o alvo da culpa, do sofrimento dele e talvez da desesperança. É preciso traçar planos para recuperar essa pessoa de volta à realidade, mostrando racionalmente saídas, sejam elas físicas, espirituais, religiosas, familiares ou de diversos outros aspectos.

            Para os profissionais da saúde, médicos em especial, há um protocolo – Spikes de 1992 que nos proporciona opção de passos para pronunciar a má notícia. Dentre os quesitos estão: preparação de um ambiente privado e acolhedor; observar sobre o que a pessoa sabe sobre a situação que está vivenciando; observar o quanto a pessoa deseja saber sobre aquilo, sua capacidade de preparo emocional para ouvir; informação da notícia propriamente dita, de forma realista, compreensível e acolhedora; lidar com as diversas emoções possíveis do ouvinte, de maneira paciente, empática; traçar estratégias de superação, minimizando a ansiedade e buscando confiança.

            Mais do que saber o passo a passo de como fazer, é descobrir em si as respostas se fosse você o ouvinte. Não é fácil elaborar o discurso, pensar nisso e muito menos aplicá-lo. Ninguém está pronto nem para falar sobre esses assuntos e muito menos para sentir na pele. Mas, como seres vivos, estamos expostos a toda e qualquer situação e, precisamos estarmos prontos para os altos e baixos que a vida nos proporciona e, procurarmos em nós motivos para seguirmos em frente, motivos para ser a fortaleza de alguém ou motivos para os quais a pessoa possa confiar na sua capacidade e que juntos superarão o diagnóstico de uma doença, ou aos diversos problemas e hipóteses negativas possíveis de serem vividas por nós todos.

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