Psicologia em Foco

Helena Cristina Silva - Psicóloga - CRP: 12/10483

 

Olhar ampliado para a família

“A família é o modelo universal para o viver. Ela é unidade de crescimento, de experiência; de sucesso e fracasso; ela é também unidade de saúde e doença.”  (Nathan Ackerman )

 

A família é entendida como um sistema complexo de relações em que seus componentes compartilham um mesmo contexto social de pertencimento. É o ambiente do reconhecimento da diferença, do aprendizado de unir-se e separar-se, onde se inicia as trocas afetivo/emocionais e a construção da identidade. É, ainda, um sistema social em constante transformação gerada por fatores internos à sua história e pelos ciclos de vida que se relacionam com as mudanças sociais. Na família estabelecem-se arrolamentos entre seus membros que partilham cultura e crenças e em que cada qual exerce funções distintas e complementares (MENDES, 2012).

O Brasil tem adotado um conceito ampliado de família. O Ministério da Saúde adota um conceito ampliado de família, considerando-a como "o conjunto de pessoas ligadas por laços de parentesco, dependência doméstica ou normas de convivência, que reside na mesma unidade domiciliar" (BRASIL, 2001).

A família é vista como uma unidade básica de interação social, em que todas as partes estão ligadas e interagem entre si, havendo um movimento ininterrupto e circular de troca entre o sistema familiar e a estrutura individual. É nesta conjunção que ocorre à conquista da identidade pessoal, possibilita-se a proteção de seus descendentes e a transmissão de valores. Desta forma, a família exerce diferentes papéis, servindo de continente para as ansiedades humanas, permitindo a socialização de seus membros e a aprendizagem, etc.

Para Osório (2002) na visão sistêmica, a família é compreendida como o primeiro grupo de pertencimento, no qual irão se estabelecer vínculos afetivos e relações de dependência. Este sistema tem como finalidade enfrentar crises e ser facilitador da saúde emocional, favorecendo desta forma o desenvolvimento e a individuação de seus componentes.

A unidade famíliar nos dias atuais é compreendida por redefinições de papéis, hierarquia e sociabilidade, aceitando diferentes configurações familiares, que estão voltadas para a valorização da solidariedade, da fraternidade, dos laços de afeto e de amor em detrimento da necessidade da consanguinidade. Diferentes configurações consistem no modo como se dispõem e se inter-relacionam os membros de uma mesma família, que se relacionam não apenas por laços consanguíneos. Assim, observa-se que a compreensão atual de família não está mais ligada necessariamente à concepção de família nuclear patriarcal, formada por mãe, pai e filhos. O entendimento de família tem se expandido à medida em que procura incluir e compreender as diferentes relações entre os seus membros.

Há diversos tipos de famílias de acordo com a estrutura e a dinâmica global, a relação conjugal e a relação parental. Se considerar a estrutura e a dinâmica global pode-se encontrar: família díade nuclear; família grávida; família nuclear ou simples; família alargada ou extensa; família com prole extensa ou numerosa; família reconstruída, combinada ou recombinada; família homossexual; família monoparental; família de pessoa que vive sozinha; família adotiva; família múltipla, entre outras formas (MENDES, 2012).

Alguns pesquisadores referem que as dificuldades de funcionamento familiar não estão, fundamentalmente, associadas à sua configuração, mas sim às relações que se instituem entre os seus membros. A competência ou saúde da família depende de fatores como o cumprimento de papéis específicos e a delimitação da função de autoridade nas figuras parentais, a qual é essencial para um funcionamento familiar funcional e para o bem-estar de seus membros (OLIVEIRA, et al, 2009).

Assim como as pessoas, as famílias têm os seus ciclos, influenciando-se reciprocamente no seu dia-a-dia. O ciclo de vida familiar é uma série de eventos previsíveis que ocorrem dentro da família em decorrência das mudanças em sua organização. Toda alteração requer de cada membro uma acomodação ao novo arranjo. É um fenômeno complexo, pois ele é uma espiral da evolução familiar, na medida em que as gerações progridem no tempo em seu desenvolvimento que vai do nascimento à morte (MCGOLDRICK e GERSON, 1995).

As etapas do ciclo são permeadas por crises, que podem ser previsíveis ou imprevisíveis (podendo acontecer em quaisquer fases do desenvolvimento). A classificação mais utilizada é proposta por McGoldrick (1995), sendo organizada por estágios: Saindo de casa: jovens solteiros; O novo Casal; Famílias com filhos pequenos; Famílias com adolescentes; Lançcando os filhos e seguindo em frente; Famílias do estágio tardio da vida. Cada estágio apresenta um processo emocional e mudanças necessárias para adaptação à etapa que a família esta vivenciando.

Toda abordagem com família se coloca com um desafio, pois requer encontrar uma forma diferente para lidar com as situações, sem deixar de lado os sentimentos desencadeados e as pessoas envolvidas, o que significa aceitar um modelo de família diferente do padrão tradicional; ter consciência dos sentimentos e preconceitos que podem surgir; ser flexível e criativo para possibilitar mudanças e arranjos necessários e funcionais.