Ciência da Vida

Bruna Oliveira - Acadêmica de Medicina

 

Construção histórica da medicina - parte 2

 

O novo ambiente era propício ao progressivo da anatomia, entendida como expressão genuína da natureza humana, que preocupou tanto cientistas quanto artistas. Aspectos característicos da época, como a importância dos métodos experimentais por observação direta dos acontecimentos naturais e a proliferação de publicações como resultado de recente invenção da imprensa distinguem a medicina do século XVI.          

A generalização da prática da dissecação de cadáveres permitiu ampliar os conhecimentos sobre a morfologia e as funções orgânicas do corpo humano. O estudo de doenças como a sífilis e males epidêmicos se concentrou também na compreensão dos mecanismos de transmissão e contágio. Além disso, uma incipiente fisiologia se esboçava, apoiada nas novas descobertas anatômicas.            

Em seu conjunto, a medicina renascentista representou um primeiro avanço na evolução da doutrina herdada de Hipócrates e Galeno, que, transmitida por intermédio dos árabes, era tomada como dogma nos mo- delos médicos medievais. A relativa liberação dos costumes do século XVI deu origem também à formulação de hipóteses sobre a natureza humana impregnadas já do espírito cientifico gerado pelos progressos da mecânica e da matemática.     

Ao longo do século XVII, a medicina adquiriu aos poucos o rigor que a caracterizaria como ciência. Embora com menos originalidade que no século anterior, no que se refere às novidades e à riqueza de suas formulações, essa ciência abri- gou uma carente crítica responsável pelo surgimento de ásperas polêmicas, que acabaram por atuar como forças motrizes para o assentamento e a evolução de novas ideias.          

A sobrevivência do galenismo, cujos fundamentos eram questionados com o argumento segundo o qual seu espírito dedutivo não se apoiava na observação, combinou-se com a formulação de teorias que abordavam a medicina do ponto de vista físico ou químico. A aplicação de diversos ramos das ciências naturais ao estudo do corpo humano constituiu uma das maiores conquistas do século XVII.     

A expansão dos limites geográficos que resultou do aperfeiçoamento da navegação pôs em contato métodos e sistemas provenientes de diversas áreas do mundo. Na Europa se difundiu o emprego de medicamentos originários principalmente do continente americano, como o quinino, que revolucionou o tratamento de diversos tipos de febre. Da comunicação com a Ásia derivou o uso generalizado do ópio como fármaco, bem como a importação das técnicas de acupuntura milenarmente empregadas na China.