ISRAEL ROCHA: UM EXEMPLO DE DETERMINAÇÃO E ALTRUÍSMO

ISRAEL ROCHA: UM JOVEM DETERMINADO QUE FOI ATRÁS DOS SEUS SONHOS E COM DETERMINAÇÃO E ALTRUÍSMO CONQUISTOU INÚMERAS VITÓRIAS. VEJA A SEGUIR A SUA FANTÁSTICA HISTÓRIA:

 

 

 

 

Costumo dizer que antes mesmo de aprender a falar português, aprendi a falar libras (Língua Brasileira de sinais), porque meu pai é surdo de nascença. Então, comecei a apontar, gesticular e só depois aprendi a falar realmente o português.

 Na minha vida tive duas oportunidades muito cedo: uma foi conhecer uma grande mulher, a Rosimeire Salvador que foi 15 vezes campeã brasileira de judô e que me ensinou a arte marcial e a filosofia de vida que é o judô, esporte que iniciei com 4 anos de idade; a outra oportunidade foi que, mesmo sendo filho de pedreiro e de professora, consegui entrar no Colégio Militar de Florianópolis. Lá, se as notas fossem acima de 8.5, havia uma entrega de estrelas de prata e, no fim do ano, estrelas de ouro. E aquilo me motivava. Fui então colecionando medalhas no Colégio e nos primeiros campeonatos de judô.  Esporte e educação sempre andando lado a lado.

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Um dia, movido pela necessidade de entender as pessoas, que provem dessa relação com meu pai surdo, me vi muito curioso e animado para aprender inglês e saí pela cidade procurando algum lugar que pudesse me dar uma bolsa de estudos. Fui em várias escolas e nada. Até que um dia encontrei um professor no meu bairro, Campeche, e o incomodei até conseguir a bolsa. Lembro que o ajudava  na sala de aula, localizada atrás da sua casa, e assistia muitas aulas além das minhas. Eu era bem metido e respondia sempre as perguntas da sala e o professor foi me testando cada vez mais. Até que um ano depois esse professor me colocou em uma sala e fechando a porta disse: você vai dar aula para essas 3 crianças hoje. Caraca! Não acredito! Comecei a passar para frente aqueles conhecimentos que tinha maior domínio e fui aprendendo como preparar e dar aula. Uma experiência singular.

Vi pessoas que passavam pelas aulas indo para outros países e isso me despertou o desejo de ir também. Mas, como um menino do Campeche, filho de pedreiro e professora conseguiria uma oportunidade para viajar? Foi então que ganhei a seletiva brasileira para representar o Brasil no mundial de judô. E  pensava que seria muito longe do Brasil, mas acabou sendo no Rio de Janeiro. Não foi dessa vez que fui conhecer outro país. Mas peguei meu primeiro voo: Florianópolis- Rio de Janeiro. E essa viagem me fez querer conhecer outras nações ainda mais.

Foi então que encontrei o projeto da Embaixada dos EUA no Brasil chamado JOVENS EMBAIXADORES, que leva 35 jovens de escolas públicas, de famílias humildes e que fazem algum trabalho voluntário para um intercâmbio de liderança nos EUA. E entre mais de 15 mil candidatos fui selecionado para o programa.  Me formei no Colégio Militar como melhor aluno da Escola (o que foi uma quebra de paradigma ter um filho de pedreiro melhor aluno do Colégio) e em janeiro de 2014, com 17 anos, fui para Washington, DC com jovens inspiradores de todo o Brasil. E no dia do meu aniversário de 18 anos eu pude visitar a Casa Branca! Que experiência incrível! Nunca tinha me imaginado nesse lugar tão poderoso, ainda mais no meu aniversário.

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Essa não foi a melhor casa que entrei nos EUA. O grupo se dividiu e eu fui morar com uma família de uma comunidade negra em Charlotte, na Carolina do Norte. Lá eu pude aprender mais sobre as diferenças entre o EUA negro e o branco, Hip hop, basquete de rua e entrar em uma igreja com 2 mil negros e ouvir mulheres incríveis cantando muito! Depois dessa experiência, comecei a trabalhar no planejamento e desenvolvimento do projeto Líderes do Amanhã para voltar para Santa Catarina com uma ação que pudesse inspirar outros jovens a acreditarem que nós podemos fazer muito mais do que a nossa realidade parece nos limitar.  O “Lideres do Amanhã” é um projeto que capacita os jovens para serem agentes de mudança em suas comunidades quebrando o paradigma que projetos sérios e comprometidos não podem ser feitos por jovens e que as coisas precisam vir de cima para baixo. Nós quebramos esses paradigmas dando a oportunidade para que o jovem discuta e vá para a ação. Fui batendo nas portas e captando recursos e o projeto foi um sucesso.

 No ano de 2014 executei o projeto ao mesmo tempo em que me preparava para o vestibular. O vestibular da Federal de SC acontece em 3 dias e, no último dia, 1 hora antes da prova, meu pai estava cortando as árvores da minha casa com uma máquina e ela voltou no rosto dele, fazendo com que colocasse a mão para se proteger e cortasse partes de 3 dedos. Ele foi para o hospital e, depois de encontrar os dedos, fui levar para o médico. Quando cheguei lá parei, minha mente ficou um caos: será que meu pai vai ficar depressivo? Ele é surdo e precisa da mão para se comunicar. E agora? Fechei o olho, e naquele momento a minha vida passou em 1 segundo. E eu sabia que deveria ir fazer a prova e fui. Chegando no local da prova, 15 minutos antes de fechar a porta, abri o caderno de questões e tinha uma pergunta sobre bolsas de sangue O- A+. Fechei a prova lembrando do meu pai e aí senti o judô na minha vida. Senti o quimono no meu corpo e, já que não estava do lado dele, tinha que fazer aquela prova, a luta que estava à minha frente! Fiz a prova e corri para casa. E meu pai estava fazendo piada do acidente com a mão enfaixada. Meu pai é um ser de luz,  nunca o vi triste; suas ações falam tão alto que  não preciso ouvir a sua voz. Ele sempre me ensinou com seu exemplo. E, no auge da minha aflição, escrevi uma poesia para ele:

 

Mãos para me ouvir

 

Som. Em tudo há som e ele dá sentido e transcreve as situações. Talvez, por vezes, negado ou então uma monótona repetição. Abolido. Som, terrível ruído ou belo ranger? Esse que comunica e é comunicado, que une e desune, que apavora e amansa. Som, questionado som. Vives no ar e tocas os ouvidos, o coração. Desces lentamente ou apenas passas e, por muitos, és negado. Som da democracia, da agonia. Elemento esse que não me faz diferença, sua falta sim. Imagino que sim. Para mim és as mãos. Mão, obscura mão que não serve de ouvido, apenas de escape. Mão, ouça oque o mundo diz! Ou apenas cala-se para poder me suprir. Som, estranho som.

         Certa vez estava assistindo o programa Altas Horas e apontando para TV  disse: vou trazer o Serginho pra Santa Catarina! Comecei a mandar mensagens, ligar e bater nas portas para trazer ele. Até um dia que descobri que havia um empresário de SC que trazia diversos palestrantes para o estado e pensei que ele seria a ponte. Descobri onde o empresário estava e consegui acesso à sala para falar com ele. Esse empresário comprou a ideia, mas sugeriu o Fabio Porchat, ligando para ele naquele momento, me deixando extremamente feliz. Mas, em dezembro de 2014, época em que tinha sido agendada a palestra do Porchatt para os membros do Líderes do Amanhã, ele acabou cancelando.

Passou o Natal, ano novo e chegou meu aniversário de 19 anos (14 de Janeiro de 2015) e eu estava lembrando do ano anterior em que eu estava na Casa Branca e esse empresário de SC me liga e fala: -Israel! Vem aqui na minha casa agora que tem uma pessoa que quer te conhecer! Eu falei que estava com a minha família comemorando meu aniversário e ele me respondeu que era para eu ir naquele momento encontra-lo e desligou. Sem muito saber, fui até a sua casa e entrando lá encontrei o ministro Joaquim Barbosa e não acreditei. Eu tinha feito vestibular para Direito e tinha ele como uma referência. Então sentei ao seu lado e começamos a conversar. Ele contou sua história e eu comecei a falar da rede de ex- intercambistas bolsistas da Embaixada dos EUA no Brasil que estava liderando, ele era membro não ativo, pois foi bolsista de um dos programas. No meio da conversa, vejo meu celular que tinha acabado de passar em Direito na Federal de SC. Levanto chorando e ele levanta comigo e me dá um abraço. Naquele abraço vi toda a história que me fez chegar ali e tive a certeza que eu e todos os jovens podemos fazer o que quisermos. Depois disso o Joaquim Barbosa virou meu mentor.

O Líderes do Amanhã passou de uma cidade para oito. Iniciei o curso de Direito e estava envolvido com a organização da Embaixada. No fim de 2015, peguei meu quimono e fui dar aula de judô para meninas em situação de abuso infantil em Arequipa no Peru. Lá, me conheci melhor e pude me fortalecer. Criei um projeto com comerciantes locais e autoridades para as meninas e pude receber uma premiação da cidade de Arequipa.

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Em 2016, fundei uma organização ligada à terceira comissão da ONU, que trabalha com o ensino da Declaração Universal dos Direitos Humanos e fui convidado para abrir a conferência do tema em Nova York com jovens de todo o mundo. Após, entrei na Rede de Ação Política pela Sustentabilidade e comecei minha formação política mais forte, depois no ProLíder, que foram 20 finais de semana debatendo com grandes gestores e empresários do país. Na sequência, iniciei com jovens de outros 8 estados o Movimento Acredito, de Renovação Política de pessoas, práticas e princípios. Fiz uma viagem educacional e política para a China e atualmente sou líder do Renova Brasil que é um programa de formação política e aceleração de lideranças.

 Aquela poesia que fiz para o meu pai, “Mãos para me ouvir", se tornou um festival que conecta a comunidade surda e ouvinte e entendi que a política é um meio muito importante que precisa ser ocupado pelas pessoas do bem. E estou pronto para lutar por uma reforma política e colocar nosso país na rota do real desenvolvimento Internacional.

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